Beechworth: hospício mal-assombrado, prisão e uma cidade ‘perdida’

Beechworth (Foto: Thaís Sabino)
Beechworth (Foto: Thaís Sabino)

Um “hospício” mal-assombrado onde homens, mulheres e crianças passaram anos confinados, tratados com choque e tortura; um dos presídios mais antigos da Austrália onde criminosos populares foram enforcados e que esconde um andar secreto no subsolo; e a cidade desaparecida El Dorado, que um dia abrigou mais de 7 mil “caçadores de ouro”.  Visitar Beechworth é como uma viagem no tempo e um programa diferente de tudo que eu já havia feito na Austrália. Minha recomendação é ir no outono, quando as folhas vermelhas e amarelas cobrem as ruas da cidadezinha e aumentam ainda mais o ar pitoresco de Beechworth.

Beechworth fica a 290 quilômetros de Melbourne, perto de Wangaratta, dá para ir de trem + ônibus, ônibus ou carro. Fiquei hospedada no George Kerferd Hotel, paguei AUD 130 por uma noite. O hotel é bom, confortável, perto do centro da cidade e de atrações turísticas como o Asylum Ghost Tours, na verdade é um dos prédios que foi usado no passado pela instituição. Só não espere muito do café da manhã. Meu primeiro ponto de parada na cidade foi o Visitor Center, comprei uma mapa dos prédios históricos de Beechworth, tickets para visitar o presídio e peguei mapas para a “cidade perdida” El Dorado.

Beechworth (Foto: Thaís Sabino)
Beechworth (Foto: Thaís Sabino)

Com o mapa em mãos, caminhamos pelo centro histórico, passando pelas igrejas e museus construídos com pedras e estrutura praticamente original. Seguimos para a Woolshed Falls, que vale uma parada para caminhada, fotos e até um piquenique, dependendo da hora do dia. A melhor época para visitar a cachoeira é no comecinho do verão, ou em dias após temporada de chuvas nas outras estações do ano. São 15 metros de queda d’água e a corrente pode chegar a até 10 metros de largura. A Woolshed Falls fica no caminho para El Dorado, nosso próximo destino.

El Dorado da Austrália
Quando o atendente do Visitor Center começou a contar sobre El Dorado, lembrei da lenda venezuelana da fonte de ouro escondida que atraiu tantos exploradores no passado. A história aqui na terra dos cangurus é parecida: o “pote de ouro” da cidadezinha vizinha de Beechworth foi descoberto em 1850 e a população chegou a mais de 7 mil pessoas na época de exploração. Hotéis, restaurantes, tinha de tudo por lá. Atualmente, cerca de 237 pessoas moram em El Dorado e a maioria das construções da época foi destruída em incêndios: é quase como se El Dorado jamais tivesse existido.

El Dorado dredge, em El Dorado (Foto: Thaís Sabino)
El Dorado dredge, em El Dorado (Foto: Thaís Sabino)

Visitamos o El Dorado Dredge, uma máquina gigantesca de 64 metros de comprimento e 50 metros de largura usada para extração de minérios. Simplesmente fascinante! A máquina extraiu 2.3 milhões de gramas de ouro até 1954. Quando estava operando, era possível ouvir o barulho a mais de 20 quilômetros de distância. A máquina continua flutuando na água e está aberta visitação gratuita. Pelo caminho da rua principal da antiga El Dorado é possível ver placas informativas sobre o que aconteceu na região e as construções que um dia estiveram lá.

Asylum Ghost Tours
Um passeio noturno que recomendo é a visita guiada pelas instalações do Mayday Hills Lunatic Asylum, que funcionou por 128 anos, até 1995. Pacientes de todo tipo eram admitidos no hospital, desde psicopatas até pessoas com problemas de saúde como epilepsia, depressão e até deficientes físicos. Nas celas e várias salas do Asylum, pacientes passaram por diversos tipos de tratamento, incluindo choque elétrico, térmico, confinamento prolongado e tortura. O tour regular acontece à noite, no escuro, e é regado de historias paranormais. Custa AUD 35 e o ticket precisa ser comprado com antecedência.

Asylum Ghost Tour, em Beechworth (Foto: Thaís Sabino)
Asylum Ghost Tour, em Beechworth (Foto: Thaís Sabino)

Eu gostei do tour, fiquei impressionada com os tipos de tratamento que eram aplicados lá até pouco tempo atrás e como a ignorância sobre certas doenças diagnosticaram pessoas como lunáticas. A guia faz várias “provocações” sobre espíritos durante o tour, então, se você se assusta com esse tipo de coisa, não recomento. Caso esteja interessado e questões paranormais, o Asylum tem tours especializados em investigação de espíritos ativos no hospício e uma opção em que as pessoas passam a noite lá.

HM Prison em Beechworth
Minha atração favorita de Beechworth foi a prisão da cidade, construída em 1864 com blocos de granito. É um dos presídios mais antigos da Austrália e mantém quase que toda a construção na forma original. As celas, a plataforma de enforcamento, as seções de isolamento, a estrutura circular da prisão, que possibilitava ao guarda observar todos os presos, e até uma piscina usada como “bônus” para bons prisioneiros. Criminosos famosos de Victoria passaram pelo centro de detenção, entre eles, o mais conhecido foi o ladrão Ned Kelly, enforcado na instituição.

HM Prison em Beechworth (Foto: Thaís Sabino)
HM Prison em Beechworth (Foto: Thaís Sabino)
HM Prison em Beechworth (Foto: Thaís Sabino)
HM Prison em Beechworth (Foto: Thaís Sabino)
HM Prison em Beechworth
HM Prison em Beechworth (Foto: Thaís Sabino)

O guia fez um trabalho fantástico ao contar historias que se deram no presídio. Segundo ele, os presos costumavam usar máscaras nas áreas comuns, eram identificados por números e dormiam cada noite em uma cela diferente, para que não pudessem criar gangues. No início das operações do presídio, os criminosos não podiam nem sair da cela, recebiam comida e bebida por uma portinha na sala de confinamento. Algumas celas chegavam a temperaturas negativas no inverno e a mais de 40 graus no verão; não há ar condicionado ou aquecedor no presídio. O guia ainda nos mostrou a sala de banho, onde os presos compartilhavam a mesma banheira, com a mesma água por dias. Loucura, não?

O presídio foi desativado em 2004, mas pesquisadores continuam a investigar o funcionamento do local e salas secretas construídas no subsolo. O ingresso custou AUD 22,50.

Comer e beber
Você precisa visitar a Bridge Road Brewers! É uma fábrica de cerveja que tem bar com decoração toda rústica onde você pode fazer degustação dos rótulos que eles produzem lá. As cervejas são uma delícia, com opções mais leves até cervejas escuras com forte aroma de café e chocolate. É um lugar bacana para sentar e relaxar no final da tarde. A Bridge Road Brewery serve pizza e alguns petiscos, mas não tem um cardápio de comida muito extenso, não.

Bridge Road Brewery, em Beechworth (Foto: Thaís Sabino)
Bridge Road Brewery, em Beechworth (Foto: Thaís Sabino)
Bridge Road Brewery, em Beechworth (Foto: Thaís Sabino)
Bridge Road Brewery, em Beechworth (Foto: Thaís Sabino)

Para jantar, eu recomendo o restaurante indiano, que tem o nome autoexplicativo: Beechworth Indian Restaurant. É um lugar simples, com preço bacana e comida deliciosa! Você pode levar o que quiser beber. Pedi butter chicken estava “dos deuses”, rs. Visitamos também a loja de doces The Beechworth Sweet Co, que tem todo tipo de bala, chocolate e doce que você pode imaginar. Tem chocolate recheado com tudo quanto é coisa. A movimentada Beechworth Bakery é um bom lugar para tomar café da manhã: chegue cedo para pegar mesa.

The Beechworth Sweet Co, em Beechworth (Foto: Thaís Sabino)
The Beechworth Sweet Co, em Beechworth (Foto: Thaís Sabino)

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