Memórias que não cabem na mala: o meu caso de amor com viagens

Da Main Beach até Cape Byron Bay
Da Main Beach até Cape Byron Bay

A primeira viagem que fiz sozinha, organizada e paga por mim, foi em 2006 e acho que foi lá por essa época que o bichinho que joga milhares de mochileiros na estrada todos os anos me picou. Eu e uma amiga nos aventuramos em uma excursão para Trindade, em um grupo que na época chamava Marcelinho Viagens, não sei se ainda existe. Acampamos, comemos miojo e pegamos muita praia. Lembro que uns dias antes eu havia colocado um piercing no umbigo, mesmo após os vários avisos dessa amiga para esperar a viagem passar. Resultado: inflamou, meu corpo expeliu e tenho a cicatriz até hoje.

Meses depois descobrimos um outro grupo de viagens, do qual fomos cliente fiéis por anos. Ecotrips começou com um grupo de amigos que gostava de viajar e hoje o negócio está profissional. Eu e essa amiga fomos para São Thomé com eles no aniversário da cidade, e eu ainda fui para Ilha do Cardoso, Ilha Grande, para o carnaval de São Luiz do Paraitinga e tantos outros lugares. Por falar em Carnaval, arrastei alguns amigos em uma das excursões para Arraial do Cabo no Carnaval: passamos mais de 15 horas na estrada em um ônibus sem ar condicionado ao calor carioca. Mas na época não foi um problemão, pelo menos não para mim.

Essas 15 horas só não superaram as 18 horas de estrada até Garobaba, também no Carnaval. A viagem com a Ecotrips, porém, começava quando entrávamos no ônibus: a festa rolava durante TODO o caminho. Levei uma amiga de infância para Garopaba, era a primeira vez que ela estava acampando e, segundo dela, após a chuva alagar a barraca no primeiro dia e ficarmos com todas as roupas molhadas durante todo o feriado, a  última. Para mim, era tudo parte da aventura, mas confesso que uma barraca seca não iria estragar em nada o passeio.

Em parte, a culpa era minha. Nunca comprei uma barraca boa. Nas primeiras viagens, usamos uma barraca emprestada de uma amiga, que não lembro de ter devolvido. Mas praticamente a cada viagem eu comprava uma barraca nova, a mais barata, que com sorte aguentava todo o passeio. Só fui comprar uma de qualidade em 2014, na Nova Zelândia, mas não consegui viajar de volta com ela e deixei como presente para uma amiga. Bom, mas continuando…

Passei três anos praticamente batendo cartão nas excursões da Ecotrips, até o Reveillon de 2010. O destino era Praia do Sono, mas deu quase tudo errado nessa viagem: choveu muito, a trilha ficou alagada, e a única forma para chegar até lá era de barco, mas a espera estava de mais cinco horas. Esperamos. Na noite do dia 31 teve uma tempestade, tentei chegar até o único lugar da ilha que tinha energia elétrica, estava chovendo muito, e parei para esperar passar em uma construção abandonada. Não passou. Minutos depois chegaram mais algumas pessoas. Celebramos a virada do ano lá, no escuro: até hoje não sei quem eram as pessoas.

Foto clássica em Ushuaia
Foto clássica em Ushuaia

Nessa época, viajar já era minha grande paixão. Mesmo que fosse em condições não muito confortáveis, eu preferia cair na estrada a ficar em casa vendo TV. Passei por poucas e boas em um mochilão pela Bolívia no famoso Trem da Morte. Dormi no chão do aeroporto de Ushuaia, no “fim do mundo”, depois de meu voo ser cancelado, passei tantos dias em Bonito que os locais começaram a me chamar pelo nome e tantas horas sentada em ônibus que meus joelhos nunca mais foram os mesmos.

A cada viagem, eu desejava viajar mais, como pode algo ser tão viciante? Eu passava o ano todo programando, pesquisando e montando o roteiro das próximas férias, até que em 2014 tomei uma decisão que mudou completamente a minha vida. Decidi não esperar mais um ano todo para ter meu um mês de prêmio, peguei minhas economias e viajei para a Nova Zelândia, onde passei um ano. A partir daí, o amor por viagem me tomou completamente, me cegou. Viajei bastante pela terra dos Maoris, acampei – com uma boa barraca -, dormi no carro, e vivi coisas e conheci pessoas inesquecíveis

Trabalhei também, e bastante, para juntar dinheiro e poder concluir meu plano de conhecer Austrália e Ásia. É claro que não consegui poupar um valor suficiente para apenas “curtir”, então mesclei trabalho em plantações e viagens pela costa leste da Austrália. Fui caçada por um porco, atacada por uma gangue de formigas verdes – elas cobriram minhas costas e cabelo -, peguei carona com desconhecidos, e me despedi com abraços sinceros. Cozinhei minha primeira feijoada, fiz meu primeiro mergulho com cilindro, viajei com pessoas que conheci no Facebook pela primeira vez e passei uma semana morando em uma caravan.

image-157Com minha mochila nas costas – mais pesada do que o ideal – e uma mala extra, embarquei para dois meses de aventura pela Ásia. Eu parecia criança no Natal, vivendo 100% cada experiência, sentindo cada cheiro, gosto e energia dos lugares. O mormaço na chegada a Phuket e o choque que foi toda aquela multidão, após mais de um ano acostumada com a pacata Nova Zelândia. As festas, as praias, o budismo, a comida, a língua, a cultura, as ruas, o trânsito caótico, e o compromisso apenas com o viver. Até a confusão que me fez ficar 24 horas no aeroporto de Bangkok e comprar uma nova passagem para o Brasil ficou na memória.

Um casal de amigos que conheci nessa trajetória, ela francesa e ele de Gibraltar, me falou que não tinha muito em bens materiais, mas que as experiências e memórias colecionadas ao longo dos anos de estrada eram impagáveis. Já faz alguns anos que minhas finanças seguem o lema “não se sabe o dia de amanhã”, não tenho casa, carro ou uma mala de dinheiro, minha bagagem tem histórias, fotos, lembranças e experiências que ninguém pode ver, mas estão todas aqui guardadas comigo.

Vilarejo flutuante, no Camboja
Vilarejo flutuante, no Camboja

 

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