Coisas que os gringos não entendem em mim e nos brasileiros

Viajar é sempre um aprendizado
Viajar é sempre um aprendizado

Viajar ou morar em um país que não é o seu é sempre uma jornada cultural, de comportamento e hábitos que se misturam e se estranham. Eu nunca, repito NUNCA, vou gostar de comer um sanduíche em 30 minutos na “hora do almoço”, nem entender o que leva australianos e neozelandeses a responderem “not too bad” quando algo é bom, ou a darem banho de banheira na louça suja… O bom é que esses choques culturais são sempre recíprocos e eu já deixei muita gente confusa.

Já que comecei com o assunto “comida”, eis algo que os gringos não entendem: me perguntam se eu quero hambúrguer ou qualquer outro lanche e minha resposta é “não, quero comida, mesmo”. Para mim, e posso dizer que para boa parte dos meus conterrâneos, isso significa um bom prato de arroz e feijão, macarronada, e outros itens que se enquadram na categoria “comida de verdade“. Eles também não entendem o real significado de “estou com fome, comi só um lanche, não almocei”. Eu sei que tudo é comida, mas nós (ou boa parte dos brasileiros) temos esse hábito de dividir os alimentos nas categorias comida e lanche.

Ainda no mesmo tema, as minhas críticas sobre a divisão das refeições tanto na Nova Zelândia como na Austrália – e sei que em tantos outros países – são sempre ouvidas com descaso. Essa história de 30 minutos de intervalo na “hora do almoço“, que como o nome já diz deveria durar os 60 minutos previstos, não é suficiente para bater um prato de verdade. Daí ao final do dia, lá pelas seis da tarde, o camarada já está faminto e ele tem duas opções: janta como um rei e vai para cama rolando, torcendo para não ter refluxo, ou faz um lanche leve e fica com fome de novo na hora de dormir.

O último tópico do assunto, prometo, é a história da vitamina de abacate. Tudo bem, eu adoro guacamole, experimentei a fruta com salada e achei uma delícia, mas nem por isso dispenso uma boa vitamina com leite, abacate, mamão, maçã e banana. E não tem nada de “gross” nisso, mas é assim que gringos reagem quando escutam essa receita. Outro dia preparei uma farofa e escutei: “gostei, só podia ter menos disso aqui”. O “disso” era a farinha de rosca… imagine a minha reação.

Se alguém me chama para uma festa em casa, eu obrigatoriamente – por educação – não vou estar lá na hora marcada. Desde pequena ouvi que “é falta de respeito chegar no horário do convite”. Confesso que às vezes esse hábito leva a duas horas de atraso, mas no Brasil isso não teria problema, pois (quase) ninguém faz churrasco ou seja lá o que estiver no cardápio da confraternização com hora para acabar, né? É até o último convidado. Já participei de reuniões entre amigos que começaram na hora do almoço e seguiram até a manhã seguinte.

Bom, mas as coisas não funcionam bem assim em outros países. Organizei um churrasco – não tinha carne, mas é assim que muita gente chama “festa em casa” – entre amigos na Nova Zelândia. Quando minha colega francesa chegou, eu ainda estava me arrumando para ir ao supermercado, e ela estava 10 minutos atrasada, de acordo com o suposto horário de início da festa. A maioria dos convidados – com exceção de um casal de amigos brasileiros – chegou antes do esperado (por mim, né). O churrasco, sem carne, foi longe e se fossemos apenas brasileiros teria durado o dobro.

Nos meus e-mails em português, as saudações: olá, bom dia, beijos, abraços (“abs” em casos mais formais) são bem comuns. E é claro que muitos de nós traduzimos essas expressões ao enviar mensagens em inglês, né? Nunca mandei um “kisses” ou “hugs”, mas o “hello, how are you?” fez parte do meu script por um longo tempo até um gringo dizer: “acho engraçado os brasileiros sempre mandarem ‘olá’ e perguntarem como a outra pessoa está por e-mail. No primeiro, tentam ser formais e no segundo estão falando da vida”. Fiz uma revisão nas mensagens que eu já havia recebido e descobri que nada ia muito além de “caro” e “atenciosamente”. Não encontrei um “como vai você?”.

13925266_10206963739480960_947614833240486917_n“Por que você está sempre sorrindo?” Que raio de pergunta é essa eu pensei na hora. Foi um garoto de Samoa, que trabalhou comigo na Nova Zelândia, quem abriu essa discussão. E eu nem sabia que eu “sorria tanto”, pelo contrário, minha mãe sempre diz que estou com “a cara amarrada”. Mas passei a reparar nas outras pessoas e descobri: brasileiro sorri muito, gente! Os australianos até mostram mais os dentes, mas neozelandeses e europeus só soltam sorriso em situações extremamente necessárias. E isso não significa, nem de longe, que estão bravos ou infelizes, acho que só precisam de mais estímulos para sorrir do que nós 🙂

Brasileiros são emotivos e gostam de se relacionar com as pessoas. Pelo menos, é essa a fama mundo afora. Um comportamento prova que essa história, porém, não é só papo. Eu falo com a minha mãe via qualquer aplicativo de celular ou computador praticamente todos os dias. Uma amiga japonesa, que estava há mais de um ano na Nova Zelândia, contou que ligava uma vez por mês para a família. A cultura holandesa, francesa e inglesa não é muito diferente. Admito que quase todo dia é bastante, mas uma vez por mês???

Para fechar com chave de ouro, uma atitude que pode gerar longas discussões. Quem está vivendo fora do maravilhoso Brasil geralmente cultiva uma relação de amor e ódio com o país. As lindas praias, a alegria do povo, a comida, a música… qualquer gringo fica interessado ao escutar as declarações de um brasileiros pela pátria amada. Mas também criticamos! A corrupção, o trânsito, a violência, a desonestidade, etc. E ai deles se entrarem no clima para atacar nosso querido país, não é? Gringos são proibidos de falar mal do Brasil, é um “direito” só nosso.

7 thoughts on “Coisas que os gringos não entendem em mim e nos brasileiros

  1. Essa de não respeitar horários marcados é invenção de brasileiros e isso sim é falta se educação. Criamos essa cultura de que é feio chegar na hora e o anfitrião se acostumou a nunca preparar as coisas na hora, pois nenhum convidado vai obedecer esse horário. Acho ridículo a pessoa se programar para um almoço que deveria começar ao meio dia mas só conseguir comer depois das 2 ou 3 da tarde, estragando qualquer programação que possa ter feito após isso.
    Então, vamos rever os nossos conceitos. Como você mesmo disse, isso é coisa de brasileiro e ninguém no mundo entende.
    Nem eu .

    1. Concordo Caroline! É muito desagradável, pior ainda que os atrasos é desmarcar na ultima hora ou confirmar presença e não comparecer.

    2. Concordo plenamente. Quanto à impontualidade , acho que não sou nem um pouco brasileira. Isso me irrita bastante. Considero uma falta de respeito. Há muitas coisas maravilhosas no Brasil mas, impontualidade, definitivamente não é uma delas.

  2. Eu nunca morei fora do Brasil, mas tenho muitos amigos estrangeiros e viajo com frequência, o que me permite observar essas diferenças culturais. Acho interessantíssimo e fico imaginando como não deve ser ter que enfrentar essas adaptações. Um desafio e tanto ,sob alguns aspectos, não é mesmo.

    Uma vez recebemos em casa um casal de canadenses que conhecemos na Sibéria e que nunca haviam viajado para nenhum país da América do Sul. Foi um grande choque cultural e tudo o que fazíamos e comíamos chamava a atenção deles. Era muito divertido. O que mais chocou, claro, foi a desigualdade social e o que mais emocionou foi como nos tratamos com abraços, beijos, risos e amizade.

    Uma vez, almoçando com uma família amiga em Medellín, eles me perguntaram sobre a vitamina de abacate, colocando em dúvida que isso pudesse existir. Eles chamavam de suco de abacate com leite. Quando contei que minha mãe gostava de abacate com açúcar e nescau, eles quase morrem de tanto rir.

    Adorei ler seu texto e descobrir mais diferenças culturais como a comida de verdade e os excessos de sorriso e ligação para a família. Muito bom!!!!!

    Em tempo: também acho muito ruim esse nosso hábito de não cumprir horário. Sempre passo perrengue pq não consigo não cumprir.
    beijos Ana

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