Sapa: viaje no tempo pelos vilarejos nas montanhas encantadas do Vietnã

Mini contando histórias nos arrozais dos vilarejos de Sapa (Foto: Thaís Sabino)
Mini contando histórias nos arrozais dos vilarejos de Sapa (Foto: Thaís Sabino)

Quando alguém me pergunta: qual foi o lugar que você mais gostou no Vietnã? Não penso duas vezes: Sapa. O vilarejo ao norte do país, já perto da fronteira com a China, não foi só o meu ponto preferido do país, como de toda a viagem pela Ásia. O motivo? As tradições locais continuam sobrevivendo a todas investidas do turismo, o povo tem uma cultura incrivelmente diferente de tudo o que já vi, é literalmente no meio do nada, as casas ainda são de madeira com “fogão” no chão da sala, ninguém sabe o que é “curtir” ou usa o “Facebook”, iPhone é um palavrão por lá e a paisagem: imagine acordar em meio a montanhas ao som da brisa do vento e de animais.

Sapa não estava no meu roteiro, mas quando vi a foto dos terraços verdes de plantação de arroz, ainda estava em Nha Trang, o nome não saiu mais da minha cabeça. Quando cheguei a Hanoi, fechar o passeio foi a primeira – e melhor – coisa que eu fiz. Comprei uma vaga no roteiro Tribes Sapa na agência de turismo do Hanoi Rocks Hostel por US$ 85 que incluiu: transporte (ônibus), guia turístico local, hospedagem em uma casa no vilarejo, alimentação e uma noite “free” no hostel. Pagaria o dobro (se eu tivesse, rs) pela experiência. Quem está em dúvida se vai ou não, meu conselho é: vai!

Parti de Hanoi às 22h no famoso e confortável “sleeping bus”. Uma dica: as pessoas falam para tentar os assentos do andar de baixo e na parte da frente do ônibus, eu, porém, preferi o andar de cima, do ladinho da janela: dormi o caminho todo. Sapa fica a 380 quilômetros de Hanoi, mas não são apenas quatro horas de viagem. Chegamos na mini estação de ônibus às 3h e ficamos descansando, ou esperando para quem estava acordado, até as 7h. Quando amanheceu já pude ver vários locais tentando “contratação” para guia turístico. Eles oferecem passeios, casa, comida a preços variados: é uma opção para quem não compra o pacote.

No meu caso , de um casal de irlandeses e de um alemão, um carro já estava a espera para nos levar até o restaurante onde seria servido o café da manhã. Foi lá que conheci a pequena e colorida Mini – não esse não é o nome real dela – que seria nossa guia turística e anfitriã pelos próximos dois dias. “Vamos caminhar 10 quilômetros hoje, a trilha pelos arrozais está molhada pois choveu, então vai ser um pouco mais demorado. Paramos um pouco antes de Lao Chai para almoçar e depois vamos até Ta Van, onde vocês vão dormir”, anunciou logo depois de se apresentar. “É difícil?”, eu perguntei. “Não”.

Ela trabalha percorrendo as trilhas, cresceu trabalhando nos arrozais, bom, a noção de “difícil” fica meio desregulada, né? O irlandês desceu de bunda um trecho de lama quase que por um minuto, o alemão estava segurando na mão de uma das senhorinhas ajudantes de Mini para tentar se equilibrar, e eu já estava coberta de barro até as canelas. Isso tudo nos primeiros 10 minutos de trilha. Ainda faltavam quase 10 quilômetros, guardei a câmera, o negócio era sério. Fomos “escoltados” por mulheres locais que tinham pelo menos o dobro da minha idade, usavam galochas de plástico, seguravam nossas mãos, enquanto trançavam fibras na outra: mamão com açúcar para elas.

A dificuldade só deu ainda mais charme ao passeio, pelo menos para mim. A paisagem dos vilarejos de Sapa é tão magnífica e exótica, cercada por traços culturais tão fortes e preservados como se o tempo não tivesse efeito sobre o estilo de vida do povo local. “Homens trabalham nas plantações de arroz e cuidando dos búfalos e vacas. Mulheres se casam antes dos 20 anos, cuidam dos filhos, da casa e trabalham no mercado de turismo. Homens não falam inglês. Mulheres aprendem a falar a língua – a maioria é analfabeta – para receber viajantes estrangeiros. Se os turistas compram das crianças, elas param de ir para a escola”, Mini falava e me fazia viajar de cima a baixo pelos arrozais.

“Aqui eles podem sequestrar a mulher na rua. Ela tem que ficar 48 horas na casa do homem, dormindo no quarto da irmã dele. Depois, ele a pede em casamento”. Oi? Sequestrar? Isso é legal? Depois dessa história tive certeza que Sapa é um lugar muito aquém de que qualquer outro lugar do mundo. A prática não é apenas comum, como normal nos vilarejos. Mulher casar cedo é negócio por lá, já que existe toda aquela história de dotes e tal. A “política da boa vizinhança” é a lei, não há polícia rondando as vilas, tanto que os locais plantam maconha – muitos, mas muitos pés – à luz do dia. As mulheres usam a erva para fazer roupas.

Quando chegamos ao restaurante, já perto das 13h, eu estava extasiada pela chuva de cultura do norte do Vietnã. O almoço foi simples, mas gostoso. Teve arroz, frango, carne -torço até hoje para não ter sido de cachorro – e legumes. Bastou finalizarmos os pratos para aquelas senhorinhas ajudantes se aproximarem com uma cesta de produtos para vender a preços de deixar milionário pobre. Comprei um lenço estampado depois de pechinchar muito. Caminhamos mais uma hora até a casinha de uma das moradoras, nosso “hotel” para a noite. Ao invés de camas, colchões com rede para mosquitos. Fogão? Não, um buraco no meio da sala aquecido à lenha. Sinal para celular? Não. Nem preciso citar wi-fi. O que eu achei de tudo isso? Perfeito.

Jantamos com a família, tomamos algumas cervejas, rimos muito em uma brincadeira de cartas e fomos dormir cedo para o próximo dia. Às 10h estávamos de volta à trilha, seguindo Mini e suas fieis escudeiras. O caminho estava um pouco mais seco, mas os tombos continuaram inevitáveis e eu estava coberta de lama já no início dos sete quilômetros do trajeto. Passamos por mais plantações de arroz, criações de galinhas e porcos, pelo vilarejo Sao Mi Ti, por uma cachoeira, mirantes e lugares belíssimos. As trilhas que dão acesso às vilas proporcionam uma paz sem igual. Jamais vou esquecer a vista do alto das montanhas do Vietnã, aquelas roupas coloridas, os brincos gigantes e os sorrisos eterno.

Nosso ponto final de parada foi Giang Ta Chai, para o almoço de despedida. O abraço em Mini foi apertado, com desejo de sorte na construção da casa para ela e o marido – eles precisam juntar um número suficiente de troncos de árvores – e saúde para os dois filhos da colorida e cheia de histórias “Mini de Sapa”.

Despedida do tour (Foto: Thaís Sabino)
Despedida do tour (Foto: Thaís Sabino)

* Dica: leve casaco à prova de chuva e use botas próprias para trilha

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